ALDINA Y Mª DO ROSÁRIO PEDREIRA

Aldina es una mujer excepcional, una gran poetisa y aunque ella no se lo crea, una gran fadista.Realmente, yo la descubrí recitando este poema de Mª do Rosário Pedreira. Esa triste entonación, ese abandono en el decir es el guante perfecto para la cruda y hermosa letra de la Pedreira.


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

(De "O Canto do Vento nos Ciprestes", 2001)

Comentarios

Anónimo ha dicho que…
Gracias a este blog descubrí a Aldina, y este fin de semana me he traido de recuerdo de Lisboa, entre varios otros, el CD en el que recita éste poema.... Simplemente sencillo, demoledor, maravilloso, precioso, al igual que ella.

Joan
fernando ha dicho que…
Joan : Gracias por el comentario.
No he de repetir aquí mis loas. Sigue su blog y verás que exquisita sensibilidad.
Saudaçoes fadistas.
Fernando.

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